Entenda como a Avaliação de Tecnologias em Saúde apoia decisões sobre medicamentos, tratamentos e sustentabilidade da saúde pública
Nos últimos anos, discussões sobre acesso a medicamentos, doenças raras, judicialização e incorporação de novas terapias passaram a ocupar cada vez mais espaço no debate em saúde. Nesse contexto, um termo aparece com frequência: Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS).
Mas afinal, o que significa ATS? E por que ela se tornou tão importante para sistemas públicos de saúde em todo o mundo?
Em sua definição mais recente, a avaliação de tecnologias em saúde, conhecida pela sigla ATS, é definida como um processo multidisciplinar que usa métodos explícitos para determinar o valor de uma tecnologia de saúde em diferentes pontos do seu ciclo de vida. O objetivo é informar a tomada de decisões a fim de promover um sistema de saúde equitativo, eficiente e de alta qualidade.1
Na prática, a ATS busca responder perguntas fundamentais:
- a tecnologia funciona?
- ela é segura? é eficaz?
- oferece vantagens em relação ao que já existe?
- qual será seu impacto para os pacientes e para o sistema de saúde?
O que é uma tecnologia em saúde?
Quando se fala em tecnologia em saúde, muitas pessoas pensam apenas em medicamentos inovadores. Mas o conceito é mais amplo, e considera como tecnologia em saúde todas as intervenções que tem como objetivo prevenir, diagnosticar, tratar, promover a saúde, fornecer reabilitação e organizar a prestação de cuidado.1
Uma tecnologia em saúde pode incluir:
- medicamentos;
- vacinas;
- exames diagnósticos;
- equipamentos;
- dispositivos médicos;
- procedimentos cirúrgicos;
- protocolos clínicos;
- e até modelos de cuidado.
A ATS avalia essas tecnologias considerando evidências científicas, impacto clínico, custos, perspectiva do usuário e sociais e viabilidade de implementação.
Por que a ATS é importante?
Todo sistema de saúde possui recursos limitados. Ao mesmo tempo, novas tecnologias chegam ao mercado constantemente, muitas delas com custos elevados e níveis variados de evidência científica.
Nesse cenário, a Avaliação de Tecnologias em Saúde ajuda a garantir que decisões sejam tomadas de forma mais técnica, transparente e baseada em evidências.
Seu objetivo não é impedir acesso, mas contribuir para que os recursos disponíveis sejam utilizados de forma mais eficiente e sustentável.
Em sistemas universais como o SUS, isso se torna ainda mais relevante. O mesmo orçamento precisa financiar vacinação, medicamentos para doenças crônicas, terapias oncológicas, tratamentos para doenças raras, assistência hospitalar e inúmeras outras demandas da população.
Por isso, a ATS passou a ser considerada uma ferramenta estratégica para apoiar políticas públicas em saúde.
Como funciona a ATS?
A ATS envolve uma análise multidimensional das tecnologias em saúde.
Além da eficácia e segurança, outros fatores também são avaliados, como:
- efetividade no mundo real;
- comparação com tratamentos disponíveis;
- impacto na qualidade de vida;
- custo-efetividade;
- impacto orçamentário;
- perspectivas sociais, como aceitabilidade, ética, preferência;
- e viabilidade de implementação no sistema de saúde.
A depender da tecnologia avaliada, podem ser utilizados diferentes modelos econômicos, revisões sistemáticas, metanálises e dados de mundo real para apoiar a tomada de decisão.
ATS e a incorporação de medicamentos no SUS
No Brasil, a principal estrutura relacionada à ATS é a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por assessorar o Ministério da Saúde nas decisões sobre incorporação de tecnologias no SUS.
Quando um novo medicamento ou tecnologia em saúde tem sua incorporação demandada no sistema público, ele passa por avaliações técnicas que incluem:
- benefício clínico;
- segurança;
- comparação com tratamentos existentes;
- impacto financeiro;
- e qualidade das evidências científicas.
Após análise técnica e consulta pública, o comitê respectivo pela avaliação na Comissão emite uma recomendação ao Ministério da Saúde.
Esse modelo é semelhante ao adotado em diversos países que possuem sistemas estruturados de avaliação de tecnologias em saúde.
ATS não é apenas economia
Um dos equívocos mais comuns é reduzir a ATS a uma análise exclusivamente financeira.
Embora aspectos econômicos sejam importantes, a Avaliação de Tecnologias em Saúde envolve uma visão muito mais ampla.
A ATS busca compreender:
- o impacto clínico da tecnologia;
- os benefícios para os pacientes;
- os riscos envolvidos;
- a qualidade das evidências;
- e os efeitos para o sistema de saúde como um todo.
Na prática, trata-se de um processo de apoio à tomada de decisão em saúde pública.
Considerações Finais
A Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) se tornou uma ferramenta essencial para sistemas de saúde que precisam equilibrar inovação, acesso e sustentabilidade.
No SUS, ela possui papel estratégico na incorporação de medicamentos, definição de políticas públicas e organização do cuidado em saúde.
Em um cenário de avanço acelerado das tecnologias médicas e aumento constante dos custos em saúde, compreender o papel da ATS é cada vez mais importante para qualificar o debate sobre acesso, equidade e sustentabilidade no Brasil.
Fundamentos em Saúde I Supera 25/05/2026
Quer entender melhor os impactos relacionados ao enfraquecimento da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) no SUS?
Leia também nosso artigo, sobre o risco de desmontar a avaliação de tecnologias no SUS.
Referências
1: O’Rourke B, Oortwijn W, Schuller T; International Joint Task Group. The new definition of health technology assessment: A milestone in international collaboration. Int J Technol Assess Health Care. 2020;36(3):187-190. doi:10.1017/S0266462320000215. Acesso em 26 de abril de 2026.